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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A hereditariedade das crenças

Crer não precisa de evidências científicas. Aquele que crê não necessariamente baseia seu sistema de crenças num sistema de provas que se ligam com idéias de realidade.

Uma das crenças mais debatidas é a do criacionismo versus evolucionismo. A primeira é baseada no design inteligente de Deus das criaturas viventes na Terra. Nessa “teoria”, cada espécie possui seu lugar marcado, sendo imutável, isolado de parentesco dos outros animais e perfeitamente adaptado ao meio onde vive. A fonte de evidências se dá principalmente no “periódico” mais lido do mundo, a Bíblia, e nela a crença dos crentes é quase como um dogma. A segunda teoria é baseada em evidências, hipóteses e fatos colecionados ao longo de vários séculos, culminando no desenvolvimento da Teoria de evolução de Darwin-Wallace. A teoria evolutiva tentou organizar a natureza de modo que os seres não são mais elos perdidos, soltos, mas são ligados por linhagens de parentesco que tem um ancestral em comum. Nela os seres não são perfeitos, e em cada espécie as variações naturais sofrem um mecanismo de seleção através da natureza e das suas relações ecológicas. As variações que trazem algum benefício ou são neutras são transmitidas geneticamente para os descendentes.

Outra forma de transmissão hereditária de caracteres se dá através do nosso aprendizado familiar, cultural e social. Ao nascermos em alguma cultura, país, família, absorvemos detalhes comportamentais, somos embebidos em crenças e criados sob a tutela de várias ideologias. Cada caractere ficará marcado com intensidade variável de força no sistema nervoso de cada indivíduo, dependendo de vários fatores, como o tipo e a classe do caractere, o ambiente familiar, a genética do indivíduo, entre outros. Em algumas sociedades, algumas ideologias são seguidas fervorosamente como nos extremistas islâmicos ou no comunismo da União Soviética. Outras são mais maleáveis, dando margens a interpretações e passíveis de discussão. O que importa é que alguns caracteres ficarão marcados com tanta intensidade que serão quase imutáveis, como as espécies dos criacionistas.

A importância de se falar nesses caracteres hereditários “quase” imutáveis se dá na possível explicação de como algumas crenças sobrevivem mesmo sob ataque de evidências, científicas ou não, por todos os lados. Vimos a Igreja Católica aceitar que Sol é o centro do nosso sistema apenas há pouco tempo, fugindo e correndo de aceitar que a Terra é um mero planeta. Agora, temos a teoria da evolução, lutando para ser aceita nos Estados Unidos, onde grande parte das pessoas ainda acredita que a terra tem por volta de 100 mil anos e os seres são desenvolvidos de forma inteligente por um Deus onisciente, onipotente e onipresente. Em outros lugares, pesquisadores também se sujeitam a viver na dúbia realidade se acreditam no livro da sua religião ou se acreditam nas evidências, tentando mesclar os dois em algo que não é conciliável. Por que esses conhecimentos culturais são tão mais fortes e impregnam na mente?

A explicação possível seria o nosso sistema nervoso, adaptado para criar laços fortes na infância, desenvolvendo um comportamento que permite uma relação não conflituosa com nossos pais, amigos e membros da sociedade. Ao nascernum seio familiar que acredita em alguma religião, a criança será moldada justamente para dividir aquilo, estreitando os pensamentos e construindo uma unidade em vários âmbitos, familiar, político e cultural. O indivíduo, ao encontrar fatos que mostram um caminho diferente do que ele construiu na infância e que vai contra alguns preceitos da sua criação, é levado a manter a sua mesma crença. Isso é até lógico. Temos várias pessoas argumentando sobre o que basicamente são opiniões. Se a opinião diverge da sua crença, é mais fácil e menos dispendioso manter aquilo que você acredita. Afinal, romper com a sua crença irá trazer mais malefícios em primeira ordem do que benefícios.

Fatos são fatos, científicos ou não, mas o nosso convívio social é um dos nossos pilares da civilização. A herança desses caracteres de comportamento e cultura permite uma vida em sociedade, eles estejam corretos ou não.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

A alcatéia corrompeu o pastor














“O mundo não está ameaçado pelas pessoas más, mas por aquelas que permitem a maldade”. Esta frase é referida como de autoria do físico Albert Einstein, mas isto não importa. Não importa de quem veio essa frase, mas importa o quanto ela é esmagadoramente real.

O senado está lá, como se fosse a liga das corrupções, cercado pelo mar poluído das cidades satélites. Já é um sistema organizado: você segura o meu que eu seguro o seu. Quem teria a capacidade de julgar outro ali, já que cada um nada na sua própria lama de merda, já que cada um suportou, encobriu e limpou e, a grande maioria, executou com suas próprias mãos, ou melhor, com mãos alheias, os maiores roubos da história? Que história de máfia, Al Capone, lei seca, tráfico de drogas. A nossa maior violência é o abandono de nós mesmos. Quantas mortes não foram causadas por desvios de dinheiro, por favorecimento ilícito, por nepotismo, por políticas públicas fajutas? Quantas mentes brilhantes, quantas obras de arte, quantos avanços científicos teremos perdidos? Quantos corpos humanos foram tratados como lixo, quantas pessoas morreram de doenças frívolas por causa de políticos que desviaram verbas de saneamento básico para o seu salário? Quantas florestas perdidas, quantas terras ressecadas, quantos morreram de fome para sustentar os ostentosos ruralistas?

Não há como prever o dano de uma nação. Não há como quantificar a nossa felicidade perdida, o nosso orgulho roubado, o nosso esforço sendo desviado para mãos de políticos sociopatas. Pois é isto que eles são. Sujeitos que não têm empatia e nem sentimentos. Sujeitos que preferem ter o seu mundo resguardado em latifúndios do que poder ter uma vida numa sociedade urbana sem tamanha desigualdade. Indivíduos que preferem ver milhões morrerem para ter um rolex no seu pulso, um carro de luxo na garagem e viajar para os paraísos capitalistas para descansar o seu ego.

O que me apavora é nossa inércia, nossa cumplicidade ridícula com esses crimes feitos por nossos políticos. Nós somos gados em fila para o abatedouro, um a um sendo morto sem pestanejar, caminhando automaticamente, indo em direção do martelo que uma hora ou outra atingirá nosso crânio.

Nós não devemos precisar de pastores para nos guiar, pois os pastores são corruptos e nos guiam para o precipício. Dos lobos não somos protegidos, pois a alcatéia corrompeu o pastor. Nós continuamos ser as ovelhas indefesas. E os lobos já não se vestem de cordeiros. Agora eles apenas aparecem e nós, amortecidos, já não fazemos nada.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Sem querer, querendo

O que queremos, de fato? Esta é uma pergunta difícil de ser respondida por que não sabemos o que queremos, ou melhor, o que sabemos sobre o nosso querer? Eu que quero tantas coisas acabo não tendo nada. Realmente eu quero? O que é esse querer que muitas vezes é o nosso combustível, mas também nossa grande fonte de sofrimento?

O querer muitas vezes é guardado em cantos da nossa mente, censurado ativamente por estruturas neurológicas que inibem esses virem a tona. Sentimentos ambíguos de desejo, negação, ira e compaixão que perturbam normalmente os humanos comuns. Imagine se tudo que pensássemos durante o dia fosse realizado: aquele encoberto desejo pela mulher do amigo ou a ira camuflada perante os motoristas abusados. Algumas vontades existem para serem inibidas e, quando conseguem ser satisfeitas repentinamente, muitas vezes são estampadas em manchetes de jornais e acabam por levar o sujeito em arrependimento.

Igual à vários casos que você conhece que um "amigo" fez algo que não queria fazer, quando estava assolado pela raiva, embriagado de amor ou, literalmente, tonto de tanto beber. Quando aquele colega seu traiu sua namorada e ela o pegou no flagra, a primeira desculpa que surgiu foi mais ou menos esta "eu não sabia o que estava fazendo, eu estava bêbado, não era eu". E a namorada (agora ex-namorada) com a já mastigada resposta "o álcool não muda o que você quer fazer, você fez por que você quis". E o restante é aquele infindável bate-boca. Entretanto, nós, analisadores frios da mente humana, podemos refletir quem estaria certo nesse caso.

Vamos por partes, mas sem a piada do Jack estripador. O namorado falou suposições que se portam independentemente da outra. Primeiro, "eu não sabia que eu estava fazendo" pode até soar estranho, mas muitas pessoas atuam como se não tivessem a consciência de estarem fazendo aquilo que faz. O álcool ajuda, e muito, nessa falta de consciência consigo mesmo. Mas, justificar que você fez algo por que não estava consciente de suas ações seria admitir que estava esquecendo justamente da consciência que lhe prende, a da sua namorada. Menos pontos. Segundo, "não era eu" é algo difícil de verbalizar. Como você fala que você não era você, quando você acaba de admitir no sujeito da frase "Eu não era eu" que você era você mesmo? O cara se complicou. Querer falar que o seu "eu" que está conversando com sua respectiva namorada não é o mesmo "eu" que estava bêbado e executou a traição é difícil até para os ouvidos mais liberais. Se seguirmos nesta lógica, posso justificar diferentes ações nas quais cada momento sou um diferente "eu" e, nesse "eu", sou justificado. Mas, me pergunto, por que não? É uma justificativa de acordo com a circunstância.

Por exemplo, quando encontra-se povos morrendo de fome ou sob situações estressantes, algumas vezes ocorrem atrocidades, roubos, assassinatos e aí por diante. Um bêbado está com seu sistema de censura afetado e muitas vezes não consegue controlar aqueles seus desejos mais íntimos. Mas, a diferença principal é que o bêbado criou a sua situação de bêbado, já a fome e guerra são consequências de desafetos um pouco menos controláveis. Tirando o caso de que o bêbado possa ser um alcoólatra, aquele que bebe de vez em quando está sujeito a não ser bem compreendido pelo que fez.

Agora, a namorada não está com razão quando diz que o namorado traiu por que quis. Na verdade, talvez ele quis de todas as maneiras mesmo, e logo ela irá descobrir isso. Mas, acontece que essa coisa de querer e não querer é bem mais complexa. O namorado podia querer ficar com uma mulher diferente da sua namorada, mas o seu sistema de inibição dava conta do recado e o mantinha na linha. Entretanto, o álcool (que foi bebido por livre espontânea vontade, bom lembrar) o liberou das amarras da censura neural.

O fato é que o querer e o não querer não é uma simples questão de escolha. Falar de quem é a culpa, de quem está certo ou errado depende de tão mais variáveis que nós custamos a processar. Resta-nos a experiência para julgar e a compaixão para tentar compreender o erro dos outros e os nossos próprios.